VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS
José Carlos de Anunciação Cardoso
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
A
sociedade mundial tem sido um pouco indiferente relativamente aos seres que são
socialmente frágeis e que muitas vezes adotam condutas violentas como forma de proteção
e/ ou imitação. A violência nas escolas não é um fenômeno novo. Todavia tem
vindo a assumir proporções tais que a escola não sabe que medidas tomar para
sanar este problema.
Pretende-se com este trabalho fazer uma breve abordagem sobre os fenômenos
da violência exercida por jovens nas escolas e como tal fato é devido à problemas de
inadaptação, confirmando se essa inadaptação é consequência do meio onde se
inserem.
Ao longo deste trabalho será alvo de reflexão o papel da
família na educação numa perspectiva histórica até aos dias de hoje; o fenômeno
de violência e como ela se registra na sociedade; a violência nos jovens frutos
da ausência de referências positivas no meio onde se circunscrevem; análise da
violência e seus implicados no contexto escolar e se poderá haver
uma interação positiva ou não entre a escola e seus alunos. Serão também
apontadas as causas da violência, sua prevenção e como o educador social,
enquanto profissional qualificado, poderá agir na
prevenção do fenômeno em questão.
O Papel da Família na Educação
O conceito de família nem sempre foi o mesmo, sofreu alterações de
acordo com o evoluir dos tempos. No Antigo Regime, não existia os termos
criança ou adolescente, a criança não tinha infância, era considerada um
"adulto jovem". A este propósito, Philippe Ariés (1988: 10-11) refere
que:
"passava-se diretamente de
criança muito pequena a adulto jovem, sem passar pelas várias etapas da
juventude de que eram talvez conhecidas antes da Idade Média e que se tornavam
o aspecto essencial das sociedades
evoluídas dos dias de hoje".
A educação da criança não era
assegurada pela família. Cedo as crianças se envolviam com os adultos em atos
sociais tradicionais, de ajuda aos pais, nos labores habitacionais no caso das
meninas e nos meninos na conservação dos bens e negócios familiares. Era deste
modo que adquiriam conhecimentos e valores
essenciais à sua formação.
Hoje, em
família abordam-se temas que eram impensáveis no passado. Os pais já não são os
senhores absolutos da lei e da ordem, nem os únicos cuidadores dos bens da
família. Por seu turno, as mães não são unicamente as protetoras do lar e
zeladoras da educação e formação dos filhos.
Todavia, devido às exigências
atuais, os pais cedo colocam os filhos em creches. Chegam a
casa, exaustos de um dia de trabalho, têm ainda as lides domésticas ou trazem
trabalho para casa. A criança é colocada sozinha a ver televisão ou a brincar
sem um adulto que lhe dê atenção. A relação familiar centra-se prioritariamente
nas necessidades físicas da criança, ou seja, na alimentação, na higiene, no
descanso. Desde criança que as novas tecnologias
imediatamente as seduzem e permitem a aquisição de novos saberes. O seu
conhecimento vai progredindo através das informações que recebe do meio onde se
insere, do meio familiar, do grupo
de pares, da escola, dos meios audiovisuais. Enquanto jovem,
o lazer e o convívio com os colegas têm uma importância primordial no seu
processo de socialização e formação.
Violência e sociedade
Desde sempre o Homem exerceu e foi alvo de violência. Recorde-se a
bíblia que retrata uma série de crueldades das quais Jesus Cristo foi vitima;
enforcamentos em praça pública; homens que lutavam até a morte nos coliseus
para deleite da assistência; a Santa Inquisição que vitimou inúmeras pessoas, o
nazismo e as
excessivas guerras que
povoam a história da humanidade. Vários autores têm tentado explicar as causas
deste fenômeno. Freud é da
opinião que o Homem tem uma predisposição inata para a violência, nasce e
cresce num ambiente
violento, porque também a sociedade é violenta.
As crianças assistem a desenhos animados televisivos nas quais as
personagens utilizam a violência para conseguir os seus intentos, por vezes são
atos nobres tais como salvar um amigo em perigo ou para salvar o planeta. O
poder de sedução da televisão e a capacidade de imitação das crianças formam
uma cumplicidade que pode atuar perigosamente na formação cognitiva destas.
A violência pode igualmente ser considerada de âmbito público ou de
âmbito privado. A primeira é mais visível, influi e distorce a imagem da
sociedade. É a que mais preocupa o Estado, pois é geradora de polêmica. A
segunda é mais recôndita, como é o caso da violência familiar, com o cônjuge ou
com os descendentes.
A Violência na Escola
Os meios de comunicação audiovisual, não raras vezes retratam
acontecimentos violentos protagonizados pelos alunos nas escolas. De fato,
inverteram-se os papéis; os métodos
violentos de alguns professores eram tradicionalmente mais frequentes no mundo
escolar: castigo físico, humilhações verbais. Atualmente, os professores não
podem exercer qualquer tipo de castigo aos alunos sob pena de sofrerem sanções
disciplinares, mas e os alunos? Que perfil apresenta os adolescentes que se
envolvem em atos de violência nas escolas.
Os comportamentos violentos na escola têm uma intencionalidade lesiva.
Podem ser exógenos, ou seja, determinados de fora para dentro, como acontece
nos bairros degradados invadidos pela miséria e pela toxicodependência, onde
agentes estranhos ao meio o invadem e destroem; pode tratar-se de violência
contra a escola, em que alunos problema assumem um verdadeiro desafio à ordem e
à hierarquia escolares, destruindo material e impondo um clima de
desrespeito permanente; ou são simplesmente comportamentos violentos na escola,
que ocorrem sobretudo quando esta não organiza ambientes suficientemente
tranquilos para a construção de valores característicos a
este local. A violência pode ser desencadeada fruto de muitas situações de
indisciplina que não foram resolvidas e que constituem a origem de um
comportamento mais agressivo.
Para combater a violência, a escola tem de analisar a forma como é
exercido o seu controlo, tem que se organizar pedagogicamente, para conseguir
deter a violência não só interior mas também exterior.
A
violência surge em contextos e em situações bem conhecidos. Torna-se imperiosa
uma intervenção educativa, não só dirigida aos jovens, mas a todos os cidadãos,
pois todos, enquanto sociedade global, somos culpados e deveremos ser chamados
a intervir para contribuirmos para uma sociedade mais justa e igualitária.
Numa sociedade tecnológica, consumista e competitiva, que valoriza a
aquisição de bens de qualquer forma, que só dá oportunidades aqueles que já
possuem algo, o comportamento desses jovens poderá ser considerado como
adaptativo. É imperioso mudar o enfoque sobre a questão da marginalidade, e,
consequentemente, sobre os direitos humanos. As medidas tutelares educativas só
deverão ser tomadas se outras ações preventivas tiverem sido já executadas e
tiverem falido. Não adianta tratar um sintoma sem primeiramente investigar a
sua causa. É muito fácil rotular os atores de violência de desequilibrados, de
maus, de desestruturados e não fazer nada para alterar estes comportamentos.
O Papel do Educador na Prevenção da Violência
O educador é um profissional que pode agir e atuar na prevenção e
resolução dos problemas de violência. A transmissão de conhecimentos e
conteúdos programáticos compete aos docentes. A intervenção poderá ser ao nível
da prevenção primária e secundária, centrando-se a "educação preventiva
primária" em campanhas de sensibilização contra a conduta violenta na
escola, realizadas nas escolas, meios de comunicação social, formação de
professores, pais e educadores.
O campo de ação do educador
social são os sectores sociais em desequilíbrio, além de solucionar
determinados problemas próprios da inadaptação, tem duas funções não menos
importantes: a primeira, desenvolver e promover a qualidade de vida de todos os
cidadãos; a segunda, adaptar e aplicar estratégias de prevenção das causas dos
desequilíbrios sociais.
A tarefa do educador é prevenir e intervir em situações de desvio ou
risco em qualquer franja mais debilitada da sociedade, de forma a criar
mudanças qualitativas. Deverá exercer intencionalmente influências positivas
nos indivíduos. A educação social atua concomitantemente com outros
trabalhadores sociais de modo interdisciplinar na proteção e promoção sociais.
A quem intervém é necessária prudência, como profissional,
salvaguardando os direitos da criança e sua família.
CONCLUSÃO
O debate sobre violência deve levar todos a repensar seu papel na
construção de uma escola inclusiva e de qualidade. A sociedade tem vindo a sofrer significativas
transformações. A família, núcleo primordial de educação, tem vindo
dissimuladamente a delegar esse papel para a escola, dado que é no contexto
educativo que as crianças passam a maior parte do dia. Todavia, nenhuma outra
instituição poderá jamais substituir as condições educativas da família, nem
parece ser razoável que seja unicamente a escola a ensinar valores tão
necessários para o normal desenvolvimento da criança tais como: a democracia, as
regras para a sã convivência, o respeito pelo outro, a solidariedade, a
tolerância, o esforço pessoal, etc. À escola não se pode pedir que além de
ensinar os conteúdos programáticos exigidos, tenha também que ter a função
educativa que compete aos pais.
No meio de tudo isto, a verdade é que a violência continua a existir e a
registrar-se cada vez mais na população jovem. A escola não pode ignorar que os
conflitos e problemas sociais existem, e por isso tem vindo a adaptar-se como
pode. E é precisamente na escola que as crianças imitem comportamentos que
diariamente observam. Meios onde proliferam os maus tratos físicos e
psicológicos, onde as privações, a promiscuidade, a baixa escolarização, a pobreza andam de
mãos dadas.
Neste
campo, urge uma intervenção conjunta realmente eficaz, fornecendo à população
em risco modelos de conduta adequados ao desenvolvimento afetivo, intelectual e
moral de todos
os implicados. Nós, sociedade democrática, somos responsáveis pelas
consequências educativas das nossas ações.
Não podemos deixar que as crianças se
transformem em futuros inadaptados ou futuros marginais, só porque não tiveram
referências positivas na infância e porque as diversas entidades educativas se
foram “esquecendo” que essas crianças também necessitam de carinho, de afeto,
que também são seres humanos como todas as outras crianças.
Referências Bibliográficas
ALÃO, Ana Paula (1990). As mudanças na condição
feminina e na família. In REIS, António.
(Dir.) Portugal contemporâneo.
Lisboa: Pub. Alfa. Vol. 6.
ARIÈS, Philippe (1988). A criança e a vida familiar no Antigo Regime. Lisboa: Relógio
D’Água Editores.
ARREGI GOENAGA, F. (1998). Los
Jóvenes y la violencia. In
PANTOJA (Org.). Nuevos espacios de la educación social. Bilbao: Universidad de
Deusto.
Convenção sobre os
direitos da criança. [consulta 2004-04-13].
Disponível na Internet: http:// www.giea.net/legislacao.net/internacional/convencao_direitos_crianca.htm.
FERNANDES, Cadi (2 de Março de 1998). Crianças sem
referências positivas. Diário de
Notícias. [consulta 1998-03-02]. Disponível na Internet: http:// www.dn.pt.
Lei n.º 166/99, de 14 de
Setembro (Lei Tutelar Educativa)
MARTINS, Ana Cristina [et.al.]
(Junho 2004). A escola na comunidade local. Espaço S – Revista de Educação Social. N.º4. Odivelas: Instituto
Superior de Ciências educativas.
MATOS, M., e CARVALHOSA, Susana F. (2001). A violência na escola: vítimas, provocadores
e outros. Tema 2, n.º 1. Faculdade de Motricidade Humana/ PEPT –
Saúde/GPT da CM Lisboa.
PONCE ALIFONSO, Cármen (1995). La intervención en
los procesos de
inadaptación social. Revista Claves de educación social. [consulta
2004-05-05]. Disponível na Internet: http:// www.eduso.net.

Comentários
Postar um comentário